Cair no amor aspas

Acordar

2019.04.15 13:56 Alfre-douh Acordar

"8h30 de domingo" diz-me o ecrã de telemóvel, acrescentando ainda: "2 mensagens não lidas" com o símbolo da aplicação respetiva ao lado. "Chegou bem a casa..." penso. "Não me sinto bem..." porque é tão difícil para mim assumi-lo? Não sei... alguma vez saberei? Não me parece. Há qualquer coisa que me inibe de sentir o que sentia antes. Antes de tudo isto começar, eu era uma versão diferente de mim. Agora, por outro lado, a versão que sou não me favorece a auto-estima.
Levanto-me da cama, vou até à janela do quarto e espreito por entre os buraquinhos dos estores. Ninguém nas varandas, o meu carro continua no mesmo sítio, a claridade parece indicar que o dia vai ser bonito. Nada de especial. Por qualquer razão sinto-me um padre à procura de uma confissão da realidade lá fora. Por qualquer razão... Como seu eu não soubesse a razão...
Ponho-me a vaguear pela casa ensonado. Tenho apenas o cuidado de calçar uns chinelos. Os cabelos dela estão por todo o lado. À vista desarmada parecem fissuras curvilíneas no mosaico bege. "Fissuras curvilíneas, devia apontar esta". Ontem, de forma geral, foi bom. Ri-me, fiz uma piada ou outra de que me orgulhei (embora agora apenas me lembre da reação dela e não das piadas em si), abordamos assuntos ditos tabu, partilhamos pontos de vista...com humor, com uma dosesinha de afirmação pessoal e com temor de não cair em generalizações. Senti-me bem no momento, geralmente sinto-me sempre bem no momento, é na solidão que os fantasmas vêm falar comigo e me fazem as perguntas que eu não sei responder.
Eu tenho esta coisa, que no meu âmago acho muito profunda: se o momento estiver a ser bom devo relaxar nos pragmatismos mundanos. Daí que hoje, domingo, 8h30 e mais uns minutos, a constatação de que caixa do pão está vazia não me aflige particularmente, nem me constorna. A diretiva que assumi permite-me esse estado de desapego ao pequeno-almoço dominical. Respondo à caixa do pão (que entretanto me fez um pirete) com um cantarolar do refrão da Float On dos Modest Mouse. "Vai tudo correr bem, Caixa do Pão. Eu tenho milhares de músicas na cabeça para me embuir de um espírito positivo face à adversidade que é a falta de hidrato de carbono matinal...It will all float on alright". Fecho a caixa do pão e vou procurar o maço de cigarros. Ontem fumei muito, porque assim o momento exigiu. Conversas pedem pontuação: silêncios, parênteses de instrospeção, virgulas, piadolas em aspas, menos pontos finais e mais reticências, o cigarro ajuda-me nisso. Saber que vou andar cá menos tempo porque gosto de pontuar a vida desta forma é de uma indulgência que considero muito própria. Lembro-me da frase dos Smashing Pumkins: "...I'm in love with my sadness" e descontextualizando-a um pouco torno-a minha. Não é uma questão de amor platónico pela minha tristeza, mas sim um amor platónico por aquilo que me mata. Daí que, neste momento, nesta minha conversa interior, a frase em si não me diz nada, mas o amor platónico por algo que me retira vitalidade...sim.
Tiro um cigarro do maço, que acabei por encontrar no chão da sala. Enquanto procuro o isqueiro nos inumeros pares de calças que se encontram amontoados no quarto, coloco a Somewhere in Between dos Streetlight Manifesto a tocar no telemóvel. Encontro o isquero precisamente no momento em que o Tomas Kalnoky lá canta: "this is the alpha, the omega, the beginning and the end, and we all just idolize the dead". Não fico indiferente a isso, mas não me detenho e, colocando o telemóvel a tocar no bolso das calças de pijama, vou até à varanda e acendo o cigarro.
A varanda da minha casa está orientada a Sul, a Este a Arriba Fóssil forma uma parede geologicamente nobre e sábia que se prolonga a perder de vista, a Oeste a cidade tapa-me a vista para o mar intemporal. Imediatamente por baixo da minha varanda existe o jardim de infância e, mais à frente (com uma plantação de couves penca pelo meio), o cemitério. "The alpha and the omega" penso enquanto, debruçado sobre a guarda da varanda, vou fumando.
"Talvez sejam horas de lhe responder"
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2018.12.12 16:01 Alfre-douh Bombo

Perder apostas não é nada fácil. Nada fácil mesmo… Há todo um investimento emocional que começa a gerar-se como um super ciclone. As nossas certezas, ainda meio vagas, começam a consumir toda a espécie de apreciações e a catalogá-las a incrementos de velocidade exponenciais. Começa com um simples “é ou não é?”, e saltando completamente acima do subliminar “quero ou não quero que seja?”, começamos a pensar “tem de ser que eu não curti muito da ideia oposta”, “tem de ser que o locutor é um bezerrinho a armar-se em boi”, “tem de ser porque…já comecei a acreditar que é” e apartir daí está em marcha e nada mais há a fazer que não seja aguardar que a experiência psicossocial de ver um touro claustrofóbico na loja do chinês corra pelo melhor.
O meu filho quis meter-se comigo, conseguiu. Aproximou-se de mim enquanto eu estava a ver um documentário sobre a solução do mundo ser privar a China de proteína animal e disse-me:
“Então então Alfredo?! Boa tarde… belo pijama, tem um bolsinho no peito e tudo…”
“Sim tem. É onde eu guardo o teu sentido de humor…”
“Alfredo, Alfredo, Alfredo…” devolve ele, enquanto coça o queixo e passeia para trás e para a frente, ocultando pendularmente a visualização do meu documentário. “Ouvi-te dizer no outro dia que a She’s a rainbow é uma música dos Beatles…”
“Por amor de Deus…filho, tu não distingues diferença na voz entre o John Lennon e Paul McCartney nem que eles estivessem com a Fátima Campos Ferreira pelo meio. Queres provocar o teu velho e sais-te com uma dessas? Respeita-me as rugas e vai lá para o teu quarto ouvir shoegaze…”
E ele toca de insistir, agora com um esgar de puto manhoso.
“Alfredo, Alfredo, Alfredo… Ai, Alfredo” insiste ele. “…tanta sobranceria num bigode tão ridículo… Tudo em ti é clarividência… Aposto que na tua banda de sonho o Ray Manzarek toca bateria e o John Bonham teclas…”
Fiquei com uma vontade de po-lo a comer uns gafanhotos. O puto acertou-me no nervo.
“Cuidado puto! Não te aceito que brinques com o Olimpo… Geração tão básica a tua, acham que o Youtube ensina, não é?! A diferença é que eu estive lá, vivi, tu podes tentar melindrar-me o que quiseres, mas eu vivi… rezo para que tenhas a mesma sorte com as tuas bandinhas de letras a queixar-se das mães e das namoradas.”
Acertei-lhe bem, porque o esgar de troça com que estava vira claramente raivinha. Pára e olha para mim, ocultando agora completamente a minha visibilidade e diz-me:
“Ok… então percebes de música e eu não, certo? Que tal uma pequena aposta? Um pequeno confronto saudável? A tua magnanima história de vida versus a minha aprendizagem de Youtube” e assinala umas aspas com os dedos ao dizer Youtube.
“Filho… já percebi! Deixei cair o teu sentido de humor do bolso do pijama e tu apanhaste-o foi? Achas que me podes bater numa conversa de musica da minha geração? Vamos a isso… Pode ser que no processo aprendas que o valor da humildade é, esse sim, magnanimo.”
Ele tenta esconder um sorriso e por momentos fico inseguro. Recomeça a coçar o queixo e a andar de trás para a frente.
“…Voltemos ao início então, meu estimado Pai. Eu digo que a She’s a rainbow é dos Rolling Stones. Tu dizes-me que é dos Beatles…com toda a humildade que te é conhecida diga-se…”
“Digo e aposto aqui o que tu quiseres pirralho!”
“Ok, vamos a isso então!…Se tiveres razão, eu meto a viola no saco e arranjo-te o CD dos Stooges que dizes, de forma sempre tão pertinente, ter sido a banda sonora do acto que me gerou. Contudo, se eu tiver razão…vamos os dois ao, humilde, IV Congresso do Bombo no Seixal. Parece-te razoável?”
“Ó meu filho, parece-me divinal que estejas disposto a receber humildade de forma tão digna!”
“Óptimo!” diz ele numa língua de serpente que por qualquer razão eu entendi.
Ele senta-se então ao meu lado no sofá. Desbloqueia o ecrã do telemóvel, sem que eu consiga perceber qual a password. Vai ao youtube e, com o indicador a tocar o teclado de forma espampanante, digita “Shes a rainbow”.
[…]
O meu queixo descai uns dois centimetros em latitude e parece querer ficar por ali. O cabrãozinho tem razão…
Dou, vagamente, por ele a levantar-se e a sair de cena, enquanto no telemóvel passa uma actuação dos Rolling Stones em 1966.
Volta passado um minuto. Tem um tamborzinho, que eu lhe ofereci em pequeno, nas mãos. Todo eu sou uma personagem perdida no tempo e no espaço. Sinto-me uma poia a flutuar no espaço sideral.
Ele coloca o tambor com cuidado, no preciso lugar onde ele se tinha sentado e diz-me ao ouvido:
“Toca a Rufar, Alfredo!”
Ao virar-me costas começa com o seu riso esganiçado e solta um: “…mas atenção… rufa, mas rufa com humildade!” E sai de cena…
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